Marquesa de Châtelet

                                   

                                                     ( 1706 - 1749 )

   

Gabrielle Émilie Le Tonnelier de Breteuil ficou conhecida  pelo título de Marquesa de Châtelet.

O seu nome aparece ligado ao de Newton pois foi ela que fez a única e excelente tradução do latim para francês dos Principia, publicada em 1759 já depois da sua morte.

Nasceu em França durante o reinado de Luís XIV na classe aristocrata. Desde criança que mostrava grande curiosidade e desejo de saber. Os pais rodearam os filhos com um ambiente propício ao conhecimento. Gabrielle mostrou capacidades raras e uma grande inteligência. Aos dez anos já tinha lido Cícero e estudado matemáticas e metafísica, aos doze falava inglês, italiano, espanhol e alemão e traduzia textos do latim e do grego. Estudou Descartes, foi uma  cartesiana pura, como forma de conhecimento só conhecia a dedução.

Aos 19 anos casou com o Marquês de Châtelet-Lamon  de 30 anos e teve três filhos. Aos 27 anos, depois do nascimento do terceiro filho, voltou a frequentar a corte de Versalhes que sempre a tinha encantado.

Devido à sua posição podia beneficiar do apoio de bons professores, alguns dos quais matemáticos como Maupertuis ( conhecido pela expedição ao polo norte para fazer medições e provar que, como dizia Newton, a terra era achatada nos pólos ). Na altura dessa viagem recebeu lições de Clairaut a quem chamou "o seu mestre em geometria e o seu iniciador em astronomia", foi ainda aluna de Koenig.

Em maio de 1734, Voltaire saiu de Paris para fugir à justiça. Refugiou-se no  castelo de Cirey-Blaise, do Marquês de Châtelet numa região montanhosa  na fronteira da Lorena. Émilie foi viver com ele em 1735. Formaram um par indissolúvel, unidos pelos mesmos interesses. Nele encontrou o companheiro de discussões, o filósofo, o homem de espírito de que necessitava. A relação durou o resto da sua vida. Em Cirey trabalharam e estudaram , os seus salões eram um centro dos intelectuais de toda a Europa que ali iam aprender com esta mulher excepcional. Na sua ampla correspondência encontram-se cartas dos grandes matemáticos da época como Johann Bernoulli, Maupertuis e Clairaut.

O casal formou uma biblioteca com mais de dez mil volumes, maior do que as  da maioria das universidades da altura.

 Emilie tinha lido, estudado e anotado as obras dos cientistas da sua época. Em 1737 a Academia das Ciências anunciou um concurso para o melhor ensaio cientifico sobre a natureza do fogo e a sua propagação. O casal começou a trabalhar, fazendo experiências. Voltaire estava a preparar um ensaio para o concurso. Porém, as conclusões a que ambos chegavam eram diferentes. Assim, um mês antes de terminar o prazo , Emilie decidiu participar de maneira independente, trabalhando em segredo. A decisão do júri não foi para nenhum deles mas para Euler. O prémio de consolação foi a publicação dos seus trabalhos. Foi a sua primeira publicação - Dissertação sobre a natureza e propagação do fogo - obra considerada avançada para a época e lhe trouxe o reconhecimento público do seu valor.

Escreveu As instituições da física, obra em três volumes, em 1740 que contém um dos capítulos mais interessantes sobre cálculo infinitesimal. A obra foi escrita para que o seu filho compreendesse a física. Não havia em francês nenhum livro de física para instruir os jovens e ela considerava que a física era uma disciplina indispensável para compreender o mundo. No prólogo, dirigindo-se ao filho, comentava as razões que a levavam a escrever o livro, e mostrava a sua paixão pelo conhecimento e pelo estudo que tentava transmitir ao filho ao mesmo tempo que criticava a ignorância, tão comum, entre as pessoas da sociedade.

De um modo geral, era um livro de física fiel à física newtoniana, porém, a filosofia puramente científica e materialista de Newton não a convencia e rescreveu os primeiros capítulos aproximando-se da metafísica de Leibniz explicando-a com profundidade e clareza, já que considerava, numa visão pouco comum na sua época, que esta podia conjugar-se com a física newtoniana. A marquesa estudou Descartes, Leibniz e por fim Newton. Convencida de muitas das ideias de Descartes, Leibniz e Newton, escreveu o seu livro tentando explicá-lo  aplicando o raciocínio cartesiano. A ideia de que a ciência devia basear-se na Metafísica era de Descartes, porém a Marquesa mostrava-se contra os remoinhos  dos cartesianos. Admirava as forças vivas de Leibniz mas não concordava com o seu arrazoado. Defendia a teoria da atracção universal de Newton mas não via Deus como um relojoeiro actuando de vez em quando no universo para dar corda aos relógios. Soube juntar o principal das teorias dos três sem estar totalmente de acordo com qualquer delas pois sempre encontrava algo numa delas  de que discordava.

Ao contrário dos seus contemporâneos masculinos que eram partidários de uma das teorias e contrários às outras duas, foi a primeira a ver o que havia de positivo em cada uma  e a tentar construir uma teoria unificada.

Escreveu também um interessante livro Discurso sobre a felicidade, onde defendia que a felicidade se conseguia com boa saúde, privilégios de riqueza e posição e com o estudo, marcando-se metas e lutando por atingi-las.

 Por volta de 1745 começou a traduzir os Philosophiae Naturalis Principia Mathematica de Newton do latim para o francês com extensos comentários que facilitavam a sua compreensão. Graças ao seu trabalho pôde ler-se em França esta obra o que fez avançar a Ciência. Era uma obra difícil, cheia de figuras e demonstrações geométricas, era preciso ter estudado geometria para a traduzir. Newton enunciava as famosas leis da gravidade universal criando um novo paradigma para a Ciência. Constavam de três livros, escritos em latim, talvez para que só alguns tivessem acesso a eles. No primeiro livro enunciavam-se as três leis fundamentais da dinâmica seguindo Kepler e Galileu e define-se força centrifuga e massa. No segundo há um trabalho sobre cálculo diferencial e movimento dos fluidos. No terceiro enuncia-se a lei da Gravitação Universal.

Quando ficou grávida ,o trabalho distraía-a das suas preocupações. Há três anos que traduzia e comentava os Principia. Este trabalho era para ela precioso e essencial. Queria terminá-lo antes do parto, não tinha tempo a perder. A filha nasceu a 2 de setembro de 1749 , Émilie morreu inesperadamente uma semana depois quando tudo parecia correr bem. O livro já estava terminado, foi publicado em 1759 com um elogioso prefácio de Voltaire.  Continua a ser editado até hoje.

De salientar, além  do excelente trabalho de divulgação de um obra tão difícil de entender, a coragem  do empreendimento  numa época adversa, uma vez que a corrente dominante em França - o pensamento de Descartes- implicava uma visão da natureza e da ciência  contrárias às ideias de Newton.

( Estas notas foram retiradas dum texto escrito por Maria Molero Aparício e Adela Salvador Alcaide em http://www.divulgamat.net/weborriak/Historia/MateOspetsuak/Inprimaketak/Chatelet.asp)

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